Comissão Diocesana de Liturgia


Celebrar o Natal

O ciclo do natal pode ser dividido em três etapas:
       Primeiro: de preparação, de gestação, é o tempo do Advento.
       Segundo: de chegada, de realização, é a festa do natal.
       Terceiro: finalmente, de manifestação é a festa da Epifania. 

Origem do natal: Por que o natal é celebrado no dia 25 de dezembro?
       A escolha desta data foi feita por causa da festa romana do “Sol invencível”. A Igreja do século IV assumiu o simbolismo da luz e do sol que não se deixa vencer a fim de evocar a memória do Cristo Sol da Justiça, que veio nos visitar.
       Então, a introdução da festa do natal no dia 25 de dezembro foi uma tentativa da Igreja de Roma de suplantar a festa pagã do “Natalis (solis) invicti”. No século III, no mundo greco-romano celebrava-se o culto ao sol, última afirmação do paganismo decadente. O imperador Aureliano (+ 275) oficializou este culto, com a construção de um templo em Roma, no Campo Marzio. Juliano Apóstata (335) intensificou o culto ao sol de tal forma que se tornou o símbolo da luta pagã contra o cristianismo. A principal festa deste culto era celebrada no solstício do inverno, no dia 25 de dezembro, porque representava a vitória anual do sol sobre as trevas.
       Com o intuito de afastar os fiéis dessas celebrações idolátricas, baseando-se na temática bíblica (cf. Ml 4,2; Lc 1,78; Ef 5,8-14), a Igreja de Roma deu um novo sentido a estas festas pagãs. Então enquanto os pagãos celebravam o nascimento astronômico do sol, os cristãos eram chamados a celebrar o nascimento do verdadeiro sol, Cristo, que se encarnou no mundo para afastar as trevas. Ligado então ao calendário solar, o natal tornou-se uma festa fixa.
       A festa do natal, então, não indica a época do ano em que Jesus nasceu. É, antes, a memória litúrgica da vinda do salvador, da sua manifestação em nossa humanidade. Então não é comemoração do aniversário de Jesus e sim celebração do mistério do nascimento do Senhor.
       Toda celebração litúrgica contém um “mistério”, como afirmava são Leão, durante o século V. Uma vez que a Igreja faz memória do acontecimento, as pessoas fazem a experiência do efeito de salvação que este acontecimento passado realiza no presente. Aplicando isto ao natal, podemos dizer que, cada celebração do mesmo, traz os frutos da encarnação e da vinda do Cristo no meio de nós.
       Celebrar o Natal é celebrar a manifestação de Deus em nossa humanidade; "O Verbo se fez carne e habitou entre nós". È festejar a salvação que entra definitivamente na história da gente. È comemorar a Páscoa do Natal! É festejar a chegada do dia da libertação, há tanto tempo esperado!  É acolher o Ressuscitado que se revela a nós como quem assumiu plenamente a nossa condição humana e a transformou. E festejar o encontro do humano com o divino: O Deus humano e a humanidade divina. É contemplar o Deus companheiro, o Deus conosco, o Emanuel. É festejar a alegria de sermos “filhos no Filho". Manifestação de Deus em nossa humanidade - O Verbo se fez um de nós (Emanuel); nele somos participantes da vida divina, filhos e filhas de Deus.

 Natal, mistério da salvação
       São Leão Magno, via o natal como “uma rica e profunda expressão, através da qual apresenta o valor salvífico do evento”.  A essência do mistério se encontra na união da humanidade com a divindade na única pessoa divina do Verbo. A finalidade deste “admirável mistério” é salvar a humanidade. Este mistério continua atuando na Igreja mediante a celebração litúrgica.
       “Com a celebração das festas epifânicas, temos, na fé, a certeza de que a salvação, acontecida no evento, é comunicada também hoje para nós. Ela nos é conferida na revelação de todo o mistério de Cristo, especialmente no mistério pascal, que é celebrado também no dia de Natal, mediante o real “memorial” eucarístico da morte, ressurreição e vinda gloriosa do Senhor”.1

O jeito próprio da pascalidade do natal
       A páscoa é a maior festa cristã. É o fato fundante da nossa fé. O natal retoma a páscoa de um jeito próprio: adoramos o Cristo como o Senhor ressuscitado, mas o contemplamos nos traços do menino nascido em Belém: “Hoje nasceu para vocês um salvador, que é o Cristo Senhor” (Lc 2,11).2

A encarnação do Verbo
       A liturgia do natal recorda todo o realismo da encarnação terrestre do Verbo. O Filho de Deus não se disfarça em homem, mas permanecendo Deus, é também real e concretamente homem; e se manifesta na realidade humana.

O Natal, princípio da Igreja e da solidariedade de todas as pessoas
       Com a encarnação, Jesus se uniu a todas as pessoas. Deus se fez solidário com todos.

Natal, mistério da renovação cósmica
       Todo o cosmo é atingido pelo mistério da encarnação. O Verbo entrou na história, recriando todas as coisas.3

O natal e a mística da paz     
       “... o sol nascente vem nos visitar e guiar nossos passos no caminho da paz” (Lc 1,78).
Os textos bíblicos do natal anunciam que Deus vai cumprir suas promessas de paz sobre a terra.
       Ultimamente, neste mundo conturbado, mundo das guerras e mortes, há muitas iniciativas e vigílias pela paz.4

A Epifania
       A epifania nasceu no Oriente, no início do século IV. Enquanto a Igreja do Ocidente celebrava o natal em Roma a do Oriente celebra a Epifania. Esta festa celebra a manifestação de Deus na encarnação.
       Já no início do século II, há notícia de uma festa cristã, celebrada por seitas gnósticas, no dia 6 de janeiro, que comemorava o batismo de Jesus, momento em que aconteceu a verdadeira “manifestação” e a investidura divina, segundo a ideologia gnóstica.
       Com a introdução da epifania em Roma e noutras igrejas do Ocidente, o episódio dos Magos tornou-se o tema central da festa. Deus não se manifesta apenas a uma única raça, a um povo privilegiado, mas aos homens e mulheres de toda tribo, nação e cultura.

Sinais sensíveis
       A celebração da vigília, com o simbolismo da luz, retoma de modo próprio a vigília pascal: lembra o nascimento de Jesus qual luz a iluminar os que andavam nas trevas. O presépio evoca o rebaixamento de Deus que vem como pobre, numa gruta de pastores...
       A estrela que guiou os magos, é sinal da manifestação de Deus a todos os povos. No batismo do Jordão, a voz do Pai manifesta Jesus como Filho e servo portador de boas notícias ao povo.
       As diversas festas, dão destaque a aspectos diferentes do mesmo mistério. As memórias de Santo Estevão, de São João e dos santos inocentes, estão profundamente relacionados com o mistério da encarnação do Verbo.
       - Os textos bíblicos trazem à memória a palavra das testemunhas do mistério: Lucas, o narrador do evangelho da infância; João o contemplativo do Verbo, Paulo e o autor da carta aos hebreus, teólogos do mistério da encarnação. Destes relatos emergem outras testemunhas do Verbo: Maria, imagem do Israel fiel; Ana e Simeão os guardiões da esperança messiânica; os pastores peregrinos de Belém; os anjos que anunciam a boa nova do nascimento de Jesus; os magos seguidores da estrela a caminho de Belém.
       - Os prefácios, as demais orações, as antífonas da Liturgia das Horas, os textos bíblicos sintetizam o sentido teológico e espiritual que a tradição atribuiu às festas do natal, valendo-se de imagens: sol da justiça, admirável intercâmbio entre o céu e a terra, entre o humano e o divino...

NATAL
Sugestões:
1. Natal é a festa da luz. Será oportuno valorizar o Círio Pascal na Vigília de Natal. Isso ligará mais a festa do Natal à festa da Páscoa.
       Exemplo: no meio da igreja, uma jovem vestida de branco ou amarelo, acende o círio. Outras velas, colocadas em vários pontos do local da celebração, vão se acendendo, enquanto o povo faz um canto adequado.
       À luz das velas, uma pessoa canta a proclamação do Natal – semelhante à proclamação da páscoa, conforme o diretório de liturgia, p. 40.
2. Valorizar: presépio, flores, luzes, estrelas, vestes brancas ou coloridas, dança e uma alegre confraternização.
3. O canto do Glória, poderá ser acompanhado de uma coreografia por crianças e ao som de sinos.
4. Durante o canto de aclamação ao evangelho, o livro da Palavra pode ser acompanhado de tochas e incenso.
5. Tempo próprio para a valorização do Creio Niceno-Constantinopolitano.
6. Cantar o prefácio, Santo, respostas da Oração Eucarística, Amém, Pai-Nosso e o Cordeiro.
7. É oportuno que a comunhão seja feita sob as duas espécies para toda a comunidade.
8. Benção especial, como nos sugere o Missal Romano, p. 520.
9. No final, seguir em procissão até o presépio, onde se entoam músicas populares de Natal.

SAGRADA FAMÍLIA
Sugestões:
1. Valorizar na procissão de entrada famílias que poderão exercer alguns ministérios na celebração.
2. Cantar o prefácio, Santo, respostas da Oração Eucarística, Amém, Pai-Nosso e o Cordeiro.
3. Na oração do Pai-Nosso, que poderá ser cantada, dar as mãos, formando uma grande família.
4. Dar destaque ao abraço da paz.
5. É oportuno que a comunhão seja feita sob as duas espécies para toda a comunidade.
6. Benção especial, com imposição das mãos, sobre as famílias, conforme Missal Romano, p. 520.

SANTA MARIA, MÃE DE DEUS
Sugestões:
1. Na procissão de entrada, além da cruz, velas, livro das leituras, um pessoa, vestida de branco, ou um grupo de crianças, traz uma bandeira branca.
2. No final do ato penitencial, ou no abraço da paz, poderá ser feito um pequeno rito: a pessoa, ou grupo que traz a bandeira, dança em torno do altar, da estante da Palavra e no meio da assembléia, enquanto se faz um canto adequado.
3. A bandeira poderá ser movimentada também durante o canto do Glória, aclamações, Santo, benção final.
4. Onde for possível, cada pessoa recebe, ao sair, uma flor, ou fita branca, como sinal da paz.
5. Benção final especial, conforme Missal Romano, p. 520.

EPIFANIA
Sugestões:
1. Na procissão de entrada trazer a cruz, velas, livro das leituras, incenso... Pode fazer parte também a entrada de flores e frutos.
2. Será muito bom valorizar e convidar para a celebração, grupo de “folia dos santos reis”. No final da celebração, pedir que apresentem seus cantos e danças para a comunidade.
3. Durante a aclamação e o evangelho, poderá ser acesas várias velas, rodeando, com a estrela e o incenso, a mesa da Palavra.
4. Conforme antigo costume, depois da proclamação do evangelho, antes mesmo da homilia, faz-se (ou canta-se) o anúncio das solenidades, a partir da Páscoa, conforme nos apresenta o Diretório litúrgico. No final canta-se uma aclamação a Cristo.
5. Benção final própria, conforme Missal Romano, p 521 e poderá ser cantada.

BATISMO DO SENHOR
Sugestões:
1. Além de destacar a mesa da Ceia e da Palavra, valorizar também a fonte batismal com o Círio Pascal.
2. Após a saudação inicial, algumas pessoas trazem vasilhas com água que derramam na fonte batismal. O presidente da celebração abençoa a água e em seguida faz a aspersão da assembléia acompanhada de um canto adequado.
3. A profissão de fé, poderia ser feita com o Símbolo Niceno-Constantinopolitano e, se possível, toda a assembléia com velas acesas.

 

Bibliografia

BERGAMINI, A., Cristo, festa da Igreja: história, teologia, espiritualidade e pastoral do Ano Litúrgico. São Paulo: Paulinas, 1994.
CNBB. Roteiros homiléticos do tempo do Advento e Natal – Ano C – 2009/2010.
Buyst, Ione. Preparando Advento e Natal, Paulinas: São Paulo, 2004.


1 A. BERGAMINI, Cristo, festa da Igreja. p. 195-212.

2 M. BARROS e P. CARPANEDO, Tempo para amar, p. 92.

3 A. BERGAMINI, Cristo, festa da Igreja. p. 216.

4 M. BARROS e P. CARPANEDO, Tempo para amar, p. 92-93.